UMA QUESTÃO DE CIDADANIA
Somos um povo de brandos costumes, acostumado a viver na corda bamba.
José Luís Araújo escreve na agenda setting todas as semanas
Esta foi daquelas semanas em que, das muitas coisas que ouvi (algumas verdadeiros atentados ao povo), várias coisas me passaram pela cabeça. Uma delas foi demitir-me. Mas depois… pensei: demitir-me de que? Não sou político, vivo do meu trabalho, para a minha empresa e ainda dou emprego a algumas pessoas… Então demitir-me de quê e porquê?
Todavia, há uma questão a que ninguém se devia demitir. Estou a falar de CIDADANIA, uma coisa que a todos diz respeito, mas que, infelizmente, não usamos ou aplicamos.
Somos um povo de brandos costumes, acostumado a viver na corda bamba, para não dizer de corda no pescoço. Diria que, tal como Egas Moniz, andamos agora de corda ao pescoço, como pedintes, por esse mundo fora para ver se pagamos o que muitos esbanjaram.
Enquanto houve milhões a rodos, fizeram-se estradas que poucos usam ou auto-estradas paralelas, que nos levam ao mesmo sítio. O problema é que, de repente, caímos em desgraça e lá temos que arcar com mais uma crise. Tem sido assim ao longo das últimas três décadas e meia. O problema é que tudo fica na mesma, tudo passa e lá voltamos nós, povo que “deu novos mundos ao mundo, a ser sujeito a mais uns quantos apertos de cinto, porque os nossos políticos não respeitaram o voto do povo, não tiveram sentido de Estado e nós não cumprimos o nosso dever de cidadãos.
A Cidadania é um “sentimento” que os nórdicos têm e aplicam no seu dia-a-dia. O dever é de todos e para todos. Se assim fosse, neste cantinho à beira-mar plantado, não teríamos ouvido o Professor Cavaco Silva queixar-se da sua “magra” reforma, tampouco teríamos os ‘senhores’ da grande distribuição a vender leite a 13 cêntimos.
Gostaria de ver o Professor Cavaco Silva passar um mês, só um mês, numa das aldeias do Portugal profundo, a viver junto de gente de mãos calejadas, de rosto enrugado do sol e do frio, que trabalhou a vida inteira, muito mais que o professor-presidente que andou “por aí” a queimar os neurónios. Esse povo, de rosto “calejado”, vive com uma reforma que, por vezes, não chega para pagar a farmácia, a electricidade e o telefone. E que comem esta pessoas Senhor Presidente?
Também o Eng. Belmiro de Azevedo deveria passar uns tempos a trabalhar numa exploração pecuária, junto de gente que trabalha de sol a sol para ver se no final do dia tem alguma coisa para pôr na mesa. Talvez aí percebesse quanto custa um litro de leite. Talvez aí percebesse o mal que faz à agricultura deste País.
A palavra “cidadania”, na boca de algumas pessoas, soa mal, soa falsidade. É que o sentido de cidadania é um dever de todos nós, mas especialmente, e principalmente, daqueles que foram eleitos.
Até para a semana.












