ESTE DEFORMANTE EFEITO DE LUPA

Published on Dez 26 2011 // José-Manuel Nobre Correia, News, Opinião
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por J.-M. NOBRE-CORREIA

Actualidade. Cada vez mais os media observam o mundo em redor fazendo de microfactos macroacontecimentos desprovidos de pertinência

Felizmente nem todas as redacções nem todos os jornalistas procedem assim. Mas é verdade que cada vez mais os media gostam de proceder dessa maneira. E a televisão é em boa parte responsável pela deriva a que assistimos desde que passou a ser o media dominante em termos de in- formação. Deriva que consiste nomeadamente em dois tipos de critérios de selecção e hierarquização da informação: dar prioridade à emoção e procurar absolutamente suscitar situações de antagonismo.
Assim, nos primeiros dias de Dezembro, a nova ministra do Trabalho do Governo italiano, numa conferência de imprensa, pôs-se em lágrimas ao ter de pronunciar a palavra “sacrifícios”. Obrigando o presidente do Conselho a pronunciar a palavra dolorosa, acrescentando: “Comove-te, mas corrige-me.” Para boa parte dos media, e sobretudo para a televisão e a Internet, foi o que ficou da conferência sobre as medidas de austeridade do Governo. Ao ponto de até se poder perguntar se a ministra não deitou uma lágrima para desviar as atenções sobre o essencial!…
Uma dezena de dias depois, foi a vez do presidente da Deutsche Bundesbank e membro do conselho de governadores do Banco Central Europeu, que comparou os países endividados aos alcoólicos. Enquanto um deputado português declarava num jantar local do seu partido que se estava “marimbando para os nossos credores”. É claro que os media nacionais não foram pedir explicações ao presidente da Bundesbank, que, provavelmente, se estaria “marimbando” para eles e não lhes “daria troco”. Mas procuraram fazer subir ao máximo as claras em castelo a propósito do deputado, para devidamente “animar a malta”…
Os media propõem-nos cada vez mais estes tipos de abordagens. Observando o mundo em redor com uma lupa que não só aumenta como deforma. Fazendo de microfactos recentes os macro-acontecimentos da actualidade. Propondo uma perspectiva falaciosa da sociedade em que vivemos. Oferecendo-nos sensações novas e emoções fortes em vez de compreensão serena e lucidez inteligente…

Publicado originalmente no DN

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